Revista Mensal


   Edição 119 - dezembro 2014

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Módulo I – Visão Histórica e Contextualizada do Uso de Drogas

Por Jorge Luiz Barbosa da Silva, Msc. Bioquímico e Farmacêutico

1. Introdução
Nos dias atuais, a palavra droga está associada a substâncias que alteram estados da mente, proporcionando experiências de prazer ou desprazer capazes de levar parte de seus usuários ao uso contínuo e à dependência. Droga tornou-se sinônimo de coisas ruins (aquilo que faz mal) e/ou de situações indesejadas (que droga!). Porém, ela pode ter sido derivada de DROWA (árabe), cujo significado é bala de trigo, ou ainda de DROOGE VATE (holandês), cujo significado é tonéis de folhas secas. Até muito recentemente quase todos os medicamentos eram feitos à base de vegetais, embora tenhamos ainda hoje muitos vegetais como medicamentos. 

A primeira língua a utilizar a palavra droga tal como nós a conhecemos hoje foi o francês: DROGUE (ingrediente, tintura ou substância química ou farmacêutica, remédio, produto farmacêutico). Atualmente, a medicina define droga como sendo: qualquer substância capaz de modificar o funcionamento dos organismos vivos, resultando em mudanças fisiológicas ou de comportamento (OMS, 1978). Portanto, nota-se que a palavra droga se refere a qualquer substância capaz de modificar um funcionamento orgânico seja essa modificação considerada medicinal ou nociva. Os antigos, inclusive, não acreditavam que as drogas fossem exclusivamente boas ou más. Os gregos, por exemplo, entendiam que qualquer droga se constitui em um veneno potencial e um remédio potencial, dependendo da dose, do objetivo do uso, da pureza, das condições de acesso a esse produto e dos modelos culturais de uso. 

Há drogas capazes de alterar o funcionamento mental ou psíquico - são denominadas “drogas psicotrópicas” ou simplesmente “psicotrópicas”. Psicotrópico advém da junção de psico (mente) e trópico (afinidade por). Desse modo, drogas psicotrópicas são aquelas que atuam sobre o nosso cérebro, alterando nossa maneira de sentir, de pensar e, muitas vezes, de agir. Mas estas alterações do nosso psiquismo não são iguais para toda e qualquer droga. Cada substância é capaz de causar diferentes reações. Uma parte das drogas psicotrópicas é capaz de causar dependência. Essas substâncias receberam a denominação de drogas de abuso, devido ao uso descontrolado observado com frequência entre os seus usuários

2. Aspectos históricos do uso de drogas
O uso de substâncias psicoativas é um fenômeno que acompanha a humanidade em diversos períodos de sua história, variando segundo critérios relativos a cada cultura, a cada época.  Ao longo da história, os homens utilizaram os produtos naturais para obter um estado alterado de consciência, em vários contextos como no religioso, místico, social, econômico, medicinal, cultural, psicológico, militar e principalmente na busca do prazer. A alteração deste estado de consciência tinha por objetivo proporcionar melhor ligação com o sobrenatural/divino, como no caso do álcool que era usado para favorecer o contato com os deuses. 
 
Na cultura grega e romana, o uso de bebidas alcoólicas estava arraigado a estas culturas, não apenas nos rituais religiosos que, via de regra, permitiam um estado alterado de consciência, mas, difundia-se como práticas sociais relacionadas às múltiplas facetas sociais tais como festas, bodas, triunfos, vitórias, datas expressivas, jogos e todo tipo de manifestação de confraternização. Com o advento das conquistas realizadas por estas civilizações, se difundiram também para outros povos. No período medieval, durante a ascendência e poder da Igreja, muitas pessoas por conhecerem os efeitos psicoativos de plantas foram mortas e/ou silenciadas pela inquisição, para não colocar em risco o poder dominante da época. O uso de substâncias psicoativas, com exceção do álcool, era restrito e combatido. 
 
Na Idade Moderna, fatores como as grandes navegações e a Revolução Industrial e o Capitalismo levaram  à concentração urbana. Isso levou a industrialização da produção de bebidas, aumentando o consumo de álcool. O aumento do contato com outros continentes e países facilitou o intercâmbio de outras drogas. Esse é o período no qual o consumo de substâncias psicoativas tomou proporções preocupantes. Egressos  das colônias localizadas na Ásia, Índia, África e no continente americano traziam o costume de utilizar certas substâncias psicoativas, para prazer ou como remédio. 
 
Ao final do século XIX há uma disseminação e grande consumo de ópio, álcool, cigarro, xarope de coco. Tem-se também nesse período o início o uso de medicação injetável. No século XX ocorrem duas guerras mundiais que incrementam o uso de anfetaminas para aumentar o rendimento dos soldados e da morfina para aliviar a dor dos feridos, sendo que os sobreviventes retornavam trazendo esta prática com outra intencionalidade, ou seja, a busca do prazer. Na década de 50 e 60, com o fortalecimento do capitalismo no mundo ocidental pós-guerra, houve uma grande necessidade de mão-de-obra. Este modelo econômico exigia, porém, que os trabalhadores fossem rápidos, ativos e principalmente sóbrios. 
 
Os jovens europeus e americanos rebelam-se contra esse modelo econômico. Os jovens americanos, desiludidos diante de uma realidade dura, injusta e brutal, para vários segmentos da sociedade, um contra-senso ao "sonho americano", que preconizava igualdade de oportunidades, liberdade e prosperidade para todos. Aumentaram sua rebeldia ameaçando a ordem social. Organizaram-se em movimentos estudantis que repercutiram na França e se espalharam pela Europa. O movimento hippie nos EUA questionava os valores da economia capitalista, buscando alternativas para viver onde a busca do prazer, da liberdade sexual (pílula anticoncepcional), do afeto e da religiosidade passam a ser fundamentais. Formaram-se comunidades de vida alternativas, na qual a cooperação é a tônica entre seus membros. Sexo, drogas e rock'n roll são expressões da "juventude transviada", que ameaçavam o sistema vigente. O uso acentuado principalmente de duas substâncias alucinógenas, maconha e LSD, levam os EUA em 1961 a proporem  uma resolução na ONU que é seguida até os dias atuais, em que o consumo de drogas ilícitas seja criminalizado. 
 
Nos anos 80 ocorre uma intensificação do uso de drogas psicoativas em especial as sintéticas (produzidas em laboratório, como anfetaminas, ecstasy e outras). Há o estabelecimento de "cartéis internacionais de drogas”, tendo na Colômbia sua concentração (cartel de Cali - Pablo Escobar). Com organização e ramificação pelo mundo, o tráfico de drogas passa a ser a segunda maior economia do mundo (só perde para a informática - produção de softwares e computadores). Há uma verdadeira guerra ao tráfico de drogas. 
 
A década de 90 foi marcada por um grande consumo de cocaína. Com o advento do neoliberalismo e a globalização observou-se nesse período uma redução da qualidade dos serviços públicos, como a saúde e a educação, e a diminuição de proteção aos indivíduos. Como consequência ocorreram: altas taxas de desemprego, aumento da violência e da dependência ao uso de substâncias psicoativas. Isto passou a ser visto como problemas não gerados pela sociedade, mas como amenizador do sofrimento e tensões sociais mais do que pela busca do prazer. Diante disto, a sociedade brasileira procura formas de conter o avanço do consumo das substâncias psicoativas legais e ilegais, estando neste quadro o uso indiscriminado de medicamentos. (Oliveira, 1992)
 
De fato, o olhar histórico do uso ritual tradicional de drogas – pelos povos mais antigos ele não acarretava danos sociais mas eram geradores de proximidade com o criador e com as coisas não possíveis - e, comparando com o uso nas sociedades contemporâneas, onde o consumo de drogas psicoativas toma a forma de grave problema internacional, jurídico, policial e de saúde pública, iniciados como a expansão do estilo de vida contracultural, primeiramente nas classes médias, a partir da década de 60, o uso de substâncias psicoativas mudou radicalmente e na sua essência finalidades e rito de uso (Velho, 1980).
O abuso de drogas atual perpassa várias classes e instâncias sociais, relacionando-se com doenças e delinquência, entre outros problemas. Reconhecendo a gravidade das repercussões desse abuso na saúde das populações e seu custo social, a comunidade internacional empreende importantes esforços para controlá-lo (Velho 1994).
 
Ações governamentais, visando o controle das drogas, desenvolvem-se em diversas nações e envolvem a cooperação entre países. Incluem financiamento e cooperação técnica que, em alguns casos, demanda deslocamentos de equipamentos e de militares entre países. Na esfera jurídica, verificam-se reformulações legais, revisando o alcance de punições de condutas relacionadas ao consumo, produção e tráfico de drogas. Instituições sanitárias e educacionais investem, por todo o mundo, recursos financeiros e humanos na pesquisa e no controle do fenômeno (SENAD, 1998).
 
Apesar de tudo isso, registra-se um aumento no uso/abuso e na dependência das diversas drogas particularmente naquelas mais baratas, de maior difusão social e lamentavelmente na de maior impactação social – o crack. Também tem-se registrado o aparecimento de novos tipos de drogas e, de forma singular, o recrudescimento de velhas dependências que estão além e no entorno da própria droga, como a compulsão pelo jogo, pelo sexo, pela internet, pelo consumo de mercadorias – que guardando as devidas proporções se assemelham à drogadição (Costa, Rebolleto, Lopes, 2007).
 
3. Aspectos técnicos sobre o uso de drogas
Vários indicadores mostram que o consumo de drogas tem atingido formas e proporções preocupantes no decorrer deste século, especialmente nas últimas décadas. As consequências, diretas e indiretas, do uso  abusivo de substâncias psicoativas são percebidas nas várias interfaces da vida social: na família, no trabalho, no trânsito, na disseminação do vírus HIV entre usuários de drogas injetáveis, seus (suas) parceiros (as) e crianças, no aumento da criminalidade, etc. São justamente os "custos sociais" decorrentes do uso indevido de drogas, cada vez mais elevados, que tornam urgente uma ação enérgica e adequada do ponto de vista da saúde pública. 
 
Embora muitos estudos e ensaios sobre intervenções nos contextos motivados pelo fenômeno do uso indevido de drogas estejam sendo realizados, ainda nos deparamos com barreiras tais como os interesses econômicos envolvidos na produção e venda de drogas (lícitas e ilícitas), a incompreensão social do problema e a falta de recursos (humanos e materiais) adequados para o seu tratamento. Ainda são insuficientes as investigações que abordam a questão em suas múltiplas dimensões, pois os estudos se reduzem, na sua quase totalidade, aos diagnósticos de situações e investigações sobre a consequência mais dolorosa do uso de drogas: a morte.
 
Quanto às políticas públicas em matéria de drogas, durante décadas a maioria dos países (incluindo o Brasil) privilegiou a repressão das substâncias ilícitas, mas pouco se fez no campo da prevenção através da educação para a saúde. Paralelamente, as drogas lícitas, em particular o álcool e o tabaco, não mereceram nenhuma atenção e até foram alçadas, através da publicidade, à condição de promotoras de sucesso, poder, bom gosto e finesse.
 
4. Custos sociais decorrentes do uso abusivo de drogas
Para estimar os custos relativos ao uso e abuso de drogas (lícitas e ilícitas) em termos de saúde pública, as pesquisas têm se pautado, principalmente, nos gastos com tratamento médico, na perda de produtividade de trabalhadores consumidores abusivos de drogas e nas perdas sociais decorrentes de mortes prematuras. Nos anos 90, o custo anual estimado nos Estados Unidos era superior a 100 bilhões de dólares e quase 30 bilhões no Brasil. Atualmente estima-se que estes custos tenham tornado-se cinco vezes maior, tanto nos Estados Unidos quanto aqui no Brasil. 
 
O Relatório do I Fórum Nacional Antidrogas (BSB, Nov 1998 - SNAD) reportava que, no Brasil, os custos decorrentes do uso indevido de substâncias psicoativas estavam estimados em 7,9% do PIB por ano, ou seja, cerca de 28 bilhões de dólares (In: Secretaria de Estado da Saúde/ SP,1996). Custo decorrente do tratamento de doenças ligadas ao uso de tabaco, que correspondiam a 2,2% do PIB nacional e que os custos totais para o SUS das patologias relacionadas com uso de tabaco elevam-se a R$ 925.276.195,75 (Chutti. In Bucher, 1992). Contudo, o tabaco não é usualmente incluído nas estatísticas sobre dependência química. A assistência especializada no tratamento das drogas ilícitas consumia, em contrapartida, 0,3% do PIB (Bucher, 1992).
 
Segundo aquele Relatório as internações decorrentes do uso abusivo e da dependência do álcool e outras drogas também comportam importantes custos sociais. No triênio de 1995 a 1997, mais de 310 milhões de reais foram gastos em internações decorrentes do uso abusivo e da dependência de álcool e outras drogas. Ainda neste mesmo período, o alcoolismo ocupava o 4º lugar no grupo das doenças que mais incapacitam, considerando a prevalência global.
 
Se multiplicarmos isso tudo por cinco teremos hoje uma razoável ideia dos custos sociais do uso abusivo de drogas.
 
5. Conclusão
A preocupação atual sobre o avanço das drogas nas sociedades e os impactos diretos e indiretos decorrentes desse avanço traz consigo inúmeras provocações a todos nós, ao mesmo tempo em que nos convida a refletir sobre como conviver e dar respostas eficazes para estes problemas que emergem a cada dia. Somos afetados direta e indiretamente. Assim, Professores, Pais, Líderes Sociais e Comunitários e todos os Cidadãos precisam diante desse fenômeno discutir e buscar respostas coletivas e adequadas, visto ser um problema plural, multifacetado, cheio de implicações, mas acima de tudo urgente. Devemos participar de inúmeros debates e fóruns de discussões para que todos os setores possam ser ouvidos e, a partir dessa consulta mais abrangente, ajustar condutas pautadas pela Justiça, pela Democracia e Ética. Talvez não encontremos respostas fáceis para esse problema tão complexo e urgente, mas teremos que ser corajosos.

Bibliografia:
BUCHER, R. Drogas e drogadição no Brasil. Porto Alegre, Artes Médicas 1992.
COSTA, Maria Cristina Silva, ORTIZ REBOLLEDO, Néstor e LOPES, Lívia Mara. Uso de drogas no Chile: pesquisa documental e bibliográfica. SMAD, Rev. Eletrônica Saúde Mental Álcool Drog. (Ed. port.), fev. 2007, vol.3, no. 1, p.00-00. ISSN 1806-6976.
OLIVEIRA, S.R.M. Ideologia no discurso sobre as drogas. Brasília, 1992 [Dissertação de Mestrado - Universidade de Brasília]. 
SEED, Santa Catarina. Secretaria de Estado da Educação e do Desporto. Viver livre das drogas: política de educação preventiva. Florianópolis, 2002.116p.
SENAD, Relatório do I Fórum Nacional Antidrogas (BSB, Nov 1998 - SNAD) 
VELHO G. Uma perspectiva antropológica do uso de droga. J Bras Psiquiatria 1980; 29 (6): 355-8.
VELHO G. Dimensão Cultural e Política do mundo das Drogas. Projeto e Metamorfose: Antropologia das Sociedades Complexas. Rio de Janeiro (RJ): Jorge Zahar Editores; 1994.

Jorge Luiz Barbosa da Silva é professor de Química do Rede Estadual de Ensino de Santa Catarina, professor do Cursinho Pré- Vestibular Só Exatas, de Florianópolis (SC), professor de pós-graduação da Faculdade Luterana de Teologia (FLT – SC), farmacêutico, bioquímico, Presidente do Conselho Municipal sobre Drogas – COMEN  (Florianópolis) e Membro do Fórum Parlamentar sobre Drogas da Câmara Municipal de Florianópolis (SC).